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Como é uma personalidade imatura?

Por Enrique Rojas

Será que sou uma pessoa imatura? O autor, renomado psiquiatra espanhol, oferece aqui dez pontos bastante claros que possibilitam um auto-exame preciso.

A personalidade é a soma dos padrões de conduta reais e potenciais e é determinada por três fatores: a herança (o nosso patrimônio genético, aquilo que herdamos os nossos pais), o ambiento (aquilo que nos cerca) e a experiência de via (a biografia de cada um). A personalidade é a marca própria e específica de cada um. O cartão de visita. Noutras palavras, a personalidade é uma organização dinâmica, em movimento, em que confluem s aspectos físicos, psicológicos, sociais e culturais de um indivíduo. Nós, psiquiatras, dedicamo-nos à engenharia do comportamento. Somos escavadores das superfícies psicológicas, procuramos aprofundar na mecânica interna do comportamento, para corrigi-lo, melhorá-lo, torná-lo mais equilibrado.

A pessoa imatura é uma pessoa a meio caminho, com uma psicologia incipiente, incompleta, que no está bem acabada e que tem muitos pontos negativos, mas que pode mudar, melhorar e tornar-se mais sólida, com a ajuda de um psiquiatra ou de um psicólogo.

Tentarei sistematizar os ingredientes principais da imaturidade, para que o leitor possa adentrar num tema tão complexo.

1. Defasagem entre a idade cronológica e a idade mental. É uma das manifestações que mais chama a atenção logo de cara. Não esqueçamos que há pessoas que amadurecem cedo e outras que levam mais tempo, e isso pode interferir um pouco na observação.

2. Desconhecimento de si próprio. Conhecer-se a si próprio era uma das normas do herói grego. No templo dedicado ao deus Apolo, em Delfos, havia a inscrição: Gnothi Seauton, “conhece-te a ti mesmo”. Trata-se de ter claro que aquilo que devemos estudar com mais afinco somos nós mesmos, temos de saber quais são as nossas limitações e as nossas atitudes. O conhecimento dessas realidades é como que a carta de navegação que nos ajuda a guiar-nos para uma vida adequada.

3. Instabilidade emocional. A instabilidade emocional manifesta-se em mudanças do estado de ânimo: o sujeito passa da euforia à melancolia de um dia para outro ou mesmo dentro de um mesmo dia. É preciso distinguir essa variação dos chamados transtornos bipolares. O imaturo é desigual, variável, irregular, os seus sentimentos movem-se e balançam como um pêndulo, de maneira que ninguém nunca sabe o que esperar dele. Essa fragilidade é um traço bem característico da imaturidade. O seu estado de ânimo pode ser representado pelos dentes de uma serra, uma espécie de montanha russa cheia de oscilações.

4. Pouca ou nenhuma responsabilidade. A imaturidade tem níveis, como qualquer outro fato psicológico. A palavra “responsabilidade” vem do latim respondere, que significa “responder”, “prometer”, “satisfazer”. Estar na realidade é ter consciência das próprias circunstâncias imediatas – o hoje e o agora –, que são inescapáveis e que ninguém pode menosprezar.

5. Pouca ou nenhuma percepção da realidade. A captação incorreta de si próprio e das circunstâncias leva o sujeito a ter um comportamento inadequado nas suas relações intrapessoais (desarmonia consigo próprio) e interpessoais (não sabe lidar com os outros, não sabe guardar distâncias e proximidades).

6. Ausência de um projeto de vida. A vida não pode ser improvisada. É preciso uma certa organização, um esquema que planeje o futuro. E os três grandes temas do nosso projeto de vida devem ser: o amor, o trabalho e a cultura. E o sujeito imaturo não assume seriamente nenhum dos três. Não se vive sem amor; o amor deve ser o primeiro motor da vida, que impulsiona e dá força aos outros dois. Do nosso comprometimento com esses três grandes temas, brota a felicidade, suma e compêndio de uma vida coerente.

7. Falta de maturidade afetiva. É preciso compreender o que é o amor e vê-lo como a vértebra da nossa vida sentimental. É o amor que dá sentido à vida. Mas não há amor sem renúncias. Além disso, é preciso ter a consciência de que ninguém é absoluto para o outro. Não há amor eterno; ele só existe nos filmes, nas canções da moda e na cabeça das pessoas imaturas. O que, sim, existe é o amor trabalhado a cada dia. Amar não significa ter sentimentos doces, mas voltar-se juntamente com o outro para as pequenas realidades cotidianas. No meu livro ¿Quién eres? (“Quem é você?”), descrevo a maturidade afetiva como uma dimensão à parte, com características próprias e específicas. Só gostaria de sublinhar uma coisa: como é fácil apaixonar-se e como é difícil manter-se apaixonado! Assistimos hoje uma verdadeira socialização da imaturidade afetiva.

8. Falta de maturidade intelectual. A inteligência, assim como a afetividade, é outra das grandes ferramentas da psicologia. Há muitas formas de inteligência: teórica, prática, social, analítica, sintética, discursiva, matemática, analógica, intuitiva e reflexiva… Mas façamos uma idéia clara: uma pessoa é inteligente quando sabe focar um tema, fazer raciocínios e juízos adequados sobre a realidade, quando é capaz de formular um conjunto de soluções exeqüíveis e positivas para problemas concretos. Na linguagem mais moderna da psicologia cognitiva: inteligência é saber receber a informação a informação, codificá-la e ordená-la de corretamente a fim de oferecer respostas válidas, coerentes e eficazes. Nesse campo, as manifestações de imaturidade são ricas e variadas: falta de visão e planejamento do futuro; hipertrofia do presente e exaltação do instante; falta de justiça nas análises pessoais e gerais; sérias dificuldades para racionalizar os fatos e aplicar-lhes um certo espírito cartesiano. A vida é como um viagem e por isso é importante saber aonde se quer chegar.

9. Pouca educação da vontade. A vontade é uma una joia que enfeita a personalidade do homem maduro. Se é frágil e não foi temperada pro uma luta constante, transforma o sujeito em um tipo débil, mole, volúvel, caprichoso, incapaz de propor-se objetivos concretos, já que tudo se desfaz com o primeiro estímulo que vem de fora e o faz abandonar a tarefa que levava a cabo. É a imagem do menino mimado, que é digna de pena: levado, arrastado e tiranizado por aquilo que é mais gostoso, aquilo que o corpo pede no momento. Não sabe dizer “não”, fazer renúncias. Um menino estragado, paparicado, malcriado, que se dobra diante de qualquer exigência séria, que nunca superará as suas próprias possibilidades. Um ser que aprendeu a não se vencer, mas a seguir os seus impulsos imediatos. Por essa via, tornou-se um sujeito volúvel, inconstante, leviano, superficial, frívolo, que se entusiasma facilmente com algo para abandoná-lo logo que as coisas ficam minimamente difíceis.

E isso acarreta outras conseqüências. O sujeito apresenta baixa tolerância às frustrações, é um mal perdedor, pois tem pouca capacidade de superar as adversidades uma vez que não está acostumado a vencer-se em quase nada; e há também uma tendência a refugiar-se num mundo fantástico a fim de escapar da realidade.

10. Critérios morais e éticos instáveis. A moral é a arte de viver com dignidade, de usar corretamente a liberdade, de conhecer e pôr em prática aquilo que é bom. Na pessoa imatura tudo está preso por alfinetes que se soltam facilmente. A moda, a permissividade, o relativismo pautam a sua vida. Ele segue os vaivens das novidades sem nenhum espírito crítico.

A maturidade é uma das pontes levadiças que conduz à fortaleza da felicidade e é resultado de um trabalho sério e paciente de perder e agregar, de polir, de limar, de procurar que a nossa forma de ser seja como uma pedra dessas que vemos nos rios que quase não têm arestas.

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Enrique Rojas
Psiquiatra espanhol especializado em temas como ansiedade e depressão. Recebeu prêmios na Espanha e no estrangeiro e os seus muitos livros são conhecidos em diversos países. Algumas das suas obras estão traduzidas para o português, entre elas: “O homem light”, “A ansiedade” e “Remédios para o desamor”.
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Fonte: www.quadrante.com.br (link da matéria)

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Células-tronco sem o uso de embriões

Para pioneiro das células-tronco a partir da pele, correr riscos está nos genes

Cientista tem como meta encontrar uma forma de dispensar uso de embriões na pesquisa.

MARTIN FACKLER
The New York Times

11/12/2007

A inspiração pode surgir dos mais inesperados lugares. O doutor Shinya Yamanaka a encontrou enquanto fazia uma observação no microscópio na clínica de fertilização de um amigo.

Yamanaka era professor assistente de farmacologia e estava realizando uma pesquisa que envolvia células-tronco embrionárias quando visitou a clínica cerca de oito anos atrás. A convite do amigo, foi ao microscópio e observou um dos embriões humanos armazenados na clínica. Aquela rápida olhada mudou sua carreira científica.

“Quando vi o embrião, de repente me dei conta de que havia uma diferença pequena entre ele e minhas filhas”, disse Yamanaka, 45, pai de duas filhas e atualmente professor da Universidade de Kyoto. “Pensei, não podemos continuar destruindo embriões para nossa pesquisa. Tem de haver outro jeito.”

Após anos de pesquisas, quase desistindo em momentos de desespero, Yamanaka pode ter encontrado essa alternativa. No mês passado, seu grupo de pesquisadores foi um dos dois que anunciaram, de forma independente, que tinham obtido êxito na transformação de células da pele adultas em células-tronco embrionárias humanas equivalentes sem usar o embrião original. A outra equipe foi liderada por James A. Thomson, da Universidade de Wisconsin, um dos primeiros cientistas a isolar células-tronco embrionárias humanas.

Yamanaka já havia demonstrado essa técnica em ratos. Depois da experiência, outros cientistas também começaram a tentar reproduzir o feito em células humanas. A descoberta com ratos foi aclamada como um grande avanço, já que oferecia uma alternativa possível para contornar as árduas questões morais que retardam o estudo das células-tronco. As células-tronco, tipo de células com múltiplas funções presentes em novos embriões, representam a promessa de auxiliar as pesquisas de doenças hoje incuráveis e produzir novos tratamentos médicos, como o crescimento de tecidos substitutivos de pacientes. Entretanto, o uso dessas células foi alvo de fortes objeções porque, até agora, só podiam ser obtidas destruindo-se embriões humanos.

Yamanaka é amplamente considerado como o primeiro cientista a ter a idéia de reprogramar células adultas para que se comportem como células-tronco graças à sua experiência em ratos. O ponto fundamental dessa idéia é adicionar genes, chamados reguladores-mestres, aos cromossomos das células da pele. Esses genes são capazes de modificar o comportamento da célula ativando e desativando outros genes.

A descoberta foi bem recebida nos Estados Unidos, onde o governo federal se recusou a financiar grande parte das pesquisas com células-tronco. Mas também foi saudada com entusiasmo no próprio Japão por mais um motivo: ela indica que o país pode finalmente ter alcançado a sua maturidade como pólo de pesquisas científicas. Nas últimas décadas, o Japão tentou reverter a sua arraigada imagem de forte produtor de aparelhos eletrônicos, mas fraco na contribuição à ciência.

“Esta é a primeira vez que uma pesquisa na área médica de importância mundial foi realizada totalmente no Japão”, declarou o doutor Hitoshi Niwa, do Centro de Biologia Desenvolvimental Riken, em Kobe. “Ninguém teve a idéia de produzir células-tronco dessa forma antes. Trata-se de um direcionamento totalmente inovador.”

Fazer-se notar é algo natural para Yamanaka, conhecido na universidade como um excêntrico de veia criativa. Alto e disposto, Yamanaka tem rosto de menino e se veste com informalidade, o que lhe confere um aspecto de estudante. Costuma fazer uma brincadeira ou outra em suas palestras, ao estilo americano, menos comum nos meios acadêmicos japoneses. Os alunos também comentam sobre a sua inclinação por esportes, contando que costumam vê-lo nadando na piscina do campus ou correndo à margem do rio.

Workaholic confesso, Yamanaka tem uma rotina de trabalho de 12 a 16 horas diárias. É conhecido no campus por preferir não almoçar com os colegas, optando por comer sozinho para assim pode aproveitar o tempo para continuar trabalhando. Sua reputação também é de uma pessoa exigente, mas afável, com sua equipe de 25 pesquisadores, na maioria estudantes universitários e pesquisadores de pós-doutorado.

O sucesso deu a Yamanaka um gostinho de celebridade que, ao que parece, não lhe agradou totalmente. Desde a divulgação de sua descoberta, um fluxo constante de jornalistas de redes do país avança em sua sala e dois grupos de imprensa invadiram os laboratórios da Universidade de Kyoto. Em uma entrevista concedida em seu laboratório, ele demonstrou uma certa impaciência, afirmando que estava cansado de tanta atenção porque isso o distraía de sua pesquisa.

Perguntado sobre a origem de seu sucesso, Yamanaka o atribuiu à sua disposição para assumir riscos. De fato, sua carreira não é muito ortodoxa pelos padrões japoneses. Enquanto muitos cientistas passaram a carreira inteira dentro do rígido universo acadêmico, Yamanaka iniciou a vida profissional na faculdade de medicina, onde se especializou em cirurgia ortopédica.

Ele conta que seu interesse pela ortopedia advém de experiências próprias, crescendo na cidade de Osaka, a oeste do Japão, onde fazia visitas freqüentes aos médicos para tratar de ossos que fraturava jogando rúgbi e lutando judô. Contudo, ele optou pela pesquisa em detrimento da prática da medicina devido à liberdade que ela proporciona, tanto para assumir riscos quanto para ousar, o que seria impossível tratando pacientes.

“Gosto da liberdade da pesquisa”, declarou ele. “Além disso, se eu fracassar na ciência, sei que sempre sobreviverei porque também sou médico. Esta é a minha apólice de seguros.”

Niwa e outras pessoas disseram que uma das maiores conquistas de Yamanaka não foi apenas a idéia de usar a reprogramação, mas também a velocidade com que ele a utilizou para criar células-tronco, primeiramente em ratos e depois em humanos. Um dos desafios foi descobrir quais genes reprogramariam células adultas. Com centenas de possibilidades de genes, o número de combinações possíveis era quase infinito.
Yamanaka contou que restringiu a busca com um método quase nada científico: um palpite.

Ele disse que usou seus instintos, além de pesquisas publicadas de outros cientistas, para escolher os 24 genes mais promissores. No laboratório, descobriu que dentre os 24, realmente havia quatro genes capazes de reprogramar células adultas para células-tronco.

“Escolher aqueles 24 genes iniciais foi quase como comprar um bilhete de loteria”, recorda-se. “Simplesmente dei sorte. Comprei o bilhete premiado.”

Outro desafio foi adaptar o método de reprogramação, que ele primeiro desenvolveu com células de rato, às células humanas. Fracassou durante meses, e em um determinado momento chegou a retornar ao grupo de 24 genes para verificar se as células humanas precisavam de uma combinação de genes reguladores-mestres diferente da dos ratos. Ele também começou a fazer experiências com mudanças menores, como alterar a solução de cultura do tipo gel onde as células eram germinadas. Foram as pequenas mudanças que deram efeito, finalmente permitindo que ele reprogramasse as células da pele humana com os mesmos quatro genes.

“Se você tivesse me perguntado em junho”, disse ele, “eu teria dito que aqueles quatro não funcionariam em humanos.”

Apesar do enorme avanço, o procedimento tem algumas falhas, como a tendência de células-tronco recém criadas tornarem-se cancerígenas, um risco existente nas células-tronco em geral, mas intensificado pois Yamanaka usou um gene que sabidamente causa tumores. O risco de câncer é um dos motivos pelos quais a terapia com células-tronco ainda parece uma possibilidade distante. A pesquisa de células-tronco demonstra uma promessa mais imediata como uma maneira de tratar a ciência básica.

Desde o anúncio da descoberta no mês passado, Yamanaka já tomou uma medida no sentido da redução do risco de câncer. Na edição de 30 de novembro da “Nature Biotechnology”, ele anunciou que mesmo sem usar o gene de câncer, conseguiu reprogramar as células e com uma incidência muito menor de câncer.

Ele conta que o maior problema que ainda persiste é o uso, no procedimento, de retrovírus para inserir os genes nos cromossomos da célula. Os retrovírus são um tipo de vírus que também pode provocar mutações em células adultas, tornando-as cancerígenas. Yamanaka contou que a próxima meta é tentar fazer a reprogramação sem os retrovírus.

Ele disse ainda que quer firmar uma parceria comercial entre a sua universidade e uma empresa privada para usar as células-tronco imediatamente em pesquisas laboratoriais para criar remédios novos e mais potentes. O atual risco de câncer não é um problema desde que as células sejam usadas na placa de petri e não sejam transplantadas em humanos, como ele explicou.

“Quero encontrar formas de colocar as células-tronco em uso rapidamente”, disse.

Yamanaka contou que foi na faculdade de medicina que ele descobriu o amor pelo trabalho em laboratório, na época de estudante, ajudando em autópsias e em pesquisas ligadas ao alcoolismo. Terminada a graduação, optou pelo doutorado em farmacologia na Universidade da Cidade de Osaka em vez de partir para a prática da medicina.

Seu interesse na pesquisa genética despertou quando deparou com um artigo sobre ratos geneticamente modificados, conhecidos como ratos “knockout”. Ele se lembra do quanto ficou fascinado com a idéia de substituir genes, que parecia uma forma de tratamento muito mais precisa do que os medicamentos convencionais que ele estudava na época.

O melhor lugar para aprender sobre genética e ratos “knockout” era os Estados Unidos, onde Yamanaka não tinha amigos nem contatos. Ele conta que enviou cerca de 30 cartas para universidades e especialistas americanos cujos nomes ele pescou em revistas e periódicos científicos. Uma das poucas que responderam foi a Universidade da Califórnia, em São Francisco, que ofereceu a ele uma vaga de pós-doutorado em 1993.

Em 1996, ele retornou à Universidade da Cidade de Osaka, trazendo consigo um lote de ratos “knockout”. No entanto, como professor assistente no departamento de farmacologia, recebeu pouca verba e apenas um posto em um laboratório dividido com outras pessoas.

“Fiquei tão deprimido com a falta de apoio que pensei em desistir”, confessa. “Ninguém me compreendia.”

Em 1999, sua carreira teve uma chance quando foi contratado por outras universidades, inclusive a Universidade de Kyoto em 2004, dispostas a dar a ele um laboratório exclusivo e engordar o orçamento das pesquisas. Mais ou menos na mesma época, ele visitou a clínica de fertilização do amigo. Essa visita o inspirou a driblar as questões morais que haviam enterrado as pesquisas sobre células-tronco, não só nos Estados Unidos, mas também no Japão, onde o Ministério da Educação impôs rígidas restrições ao uso de embriões.

Na verdade, as restrições são tão rigorosas que ele conta que não pode usar embriões humanos em seus laboratórios aqui. As pesquisas que usam embriões humanos são realizadas na U.C., em São Francisco, onde ele mantém um pequeno laboratório com apenas dois pesquisadores. Ele diz que ele mesmo nunca manuseou células embrionárias originais e que o laboratório americano as utiliza apenas para checar se as células adultas reprogramadas estão se comportando como verdadeiras células-tronco.

“Agora não há como se esquivar totalmente do uso dos embriões”, disse ele. “Mas meu objetivo é evitar usá-los.”

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Superação

Preparar alunos da rede pública de ensino para o exame de ingresso nas melhores universidades do Rio de Janeiro, esta é a meta do Superação, um projeto social organizado por um grupo de estudantes universitários que freqüentam o Centro Universitário da Tijuca e o Centro Cultural das Laranjeiras.

Todos os sábados, os universitários se responsabilizam por ensinar e acompanhar os estudos dos alunos da rede pública de ensino com a consciência de que o diferencial desta iniciativa está no acompanhamento personalizado que se oferece a cada aluno.

- O ideal é chegar a cada aluno. O que quero é não só passar a matéria, mas resolver efetivamente as dúvidas de cada aluno. Quero ensinar matemática como cada um é capaz de aprender.

Assim descreve George Gatti, estudante de Engenharia Mecânica na UFRJ, como prepara as aulas e realiza a tutoria. Os desafios são grandes, pois falta base matemática e lingüística aos alunos. Além disso, a falta do hábito do estudo gera cansaços e o ímpeto de querer desistir. George insiste:

- É preciso conseguir que os alunos estudem sem desanimar. Fazendo-os perceber que é possível. É muito animador saber que todo o esforço vale a pena. Nós ajudamos um pouco. O mérito maior é dos alunos que se esforçam para valer.

Se os desafios são grandes, a motivação para ajudar e prestar uma efetiva contribuição para cada aluno é ainda maior. Segundo George:

- No princípio, o que me moveu foi a vontade de ajudar os alunos a conquistar seus objetivos. Com as tutorias individuais para tirar dúvidas, foi possível desenvolver uma boa amizade com os alunos. No fim do projeto, o que me movia era a amizade, a vontade de ajudar um amigo.

Os alunos do Superação percebem logo este diferencial. Alessandro Eronides originário de um colégio estadual tornou-se aluno constante do Superação e agora faz um curso de engenharia elétrica na UERJ. Assim ele resume o que significou este projeto:

- Para mim, o Superação foi tudo. Se não tivesse feito não passaria. Dois pontos do curso merecem destaque. O que mais me chamou a atenção foi o relacionamento muito próximo entre professores e alunos. Os professores tiravam as dúvidas individualmente, funcionou praticamente como uma aula particular. O outro ponto chave do Superação é que me incentivou a estudar. Aprendi que o principal é estudar em casa, o que faz a diferença é estudar e fazer exercícios.

Ao ser perguntado sobre quais os planos para o futuro, Alessandro respondeu de bate-pronto:

- Fazer o que aprendi no Superação: estudar bastante, dedicar-me à faculdade.

É esta oportunidade que o Superação pretende continuar dando aos alunos da rede pública de ensino.

Neste ano pretende-se iniciar uma nova turma no bairro do Caju. A idéia é começar com os alunos da 8ª série que ao longo de quatro anos se beneficiarão deste reforço escolar.

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Crise da Liberdade

LIVRES PARA QUÊ?


Grande parte da atual confusão acerca da liberdade se deve ao fato de pensarmos que a liberdade consiste na ausência de restrições externas, esquecendo-nos de que são mais importantes as limitações internas, procuradas ou aceitas, que impedem o desenvolvimento da nossa verdadeira personalidade. Trata-se essencialmente de possuir e de saber exercer um potencial interior que inclui – em íntima relação – o domínio de si, a posse de si e a realização pessoal.

“Tornas livre um homem – dizia James Farmer, destacado líder da campanha em favor dos direitos civis do negro americano –, mas ele ainda não é livre. Falta ainda que se liberte a si mesmo”. E Nietzsche escreveu: “Julgas que és livre? Fala-me da raiz dos teus pensamentos, não de como te livraste do jugo. Achas que foste capaz de livrar-te dele? Muitos abandonaram todos os seus valores ao rechaçarem as suas servidões. Livre de quê? Que importa isso a Zarathustra? Olha-me nos olhos e responde-me: livre para quê?…”

O homem moderno quer ser livre de. Mas o seu problema consiste em não saber para que deve ser livre… E, como resultado, corre o perigo de perder ou abandonar a sua liberdade, nem que seja pela simples razão de que é cada vez menos capaz de propor-se uma meta que valha a pena, para a qual possa orientar essa mesma liberdade.

ESTANCADOS NA ENCRUZILHADA


Em última análise, de pouco serve a liberdade a um homem que careça de valores ou de ideais e, menos ainda, a quem tenha medo de comprometer-se. Ora não há dúvida de que o homem moderno está inseguro dos seus ideais e nada disposto a comprometer-se.

De pouco serve a liberdade àquele que carece de valores ou ideais porque, não tendo na sua vida metas que valham a pena, as suas opções têm pouco ou nenhum valor real. Fundamentalmente, o seu problema é que não é capaz de respeitar as coisas que escolhe, porque escolheu coisas sem valor. Mesmo na hipótese de que haja mais liberdade no mundo de hoje, de que serve essa liberdade a um mundo que perdeu grande parte dos seus critérios de valor? É muito triste orgulhar-se de se terem finalmente aberto todos os caminhos, de se terem varrido todas as restrições que entulhavam esses caminhos, e, ao mesmo tempo, ter a crescente convicção de que são caminhos que não levam a parte alguma…

E de que serve ter abertos todos os caminhos se, no fundo, se tem medo de escolher um dentre eles ou até mesmo de fazer um pouco mais do que tímidas tentativas?, se, quando muito, se ensaiam uns passos por determinado caminho, e logo se está inclinado a desandá-los por tédio ou por cansaço, para depois experimentar outro caminho (outro trabalho, outro homem, outra mulher…), e outro, e outro…?

O homem de hoje contempla com tanto receio a possibilidade de se comprometer que está em perigo de paralisar voluntariamente o seu poder de escolha, a sua própria liberdade. Escolher é comprometer-se. Toda a escolha é um compromisso. Por isso, aqueles que têm medo de escolher ou se limitam a tentativas que abandonam rapidamente, contradizem e anulam a sua própria liberdade.

O homem moderno, como o homem de todas as épocas, está na encruzilhada de vários caminhos, mas enquanto tiver medo de se comprometer, ficará estancado na encruzilhada.

PARALISIA PROGRESSIVA


Esta paralisia progressiva da liberdade, que vai tornando o homem incapaz de escolher de forma segura e duradoura qualquer coisa que lhe exija uma certa “capacidade de suportar”, já não é a simples dificuldade inerente ao poder de escolha, a dificuldade que deriva do simples fato de que a escolha de uma alternativa implica a exclusão de todas as demais [1]. Isto foi sempre assim, e é o que mais faz pensar a qualquer pessoa com um mínimo de inteligência antes de tomar uma decisão mais séria; assim, por exemplo, a de casar-se, já que, quando se escolhe uma mulher, excluem-se todas as demais. A liberdade sempre representou um risco para o ser humano. Em tempos passados, a maioria preferia enfrentar a questão, mais cedo ou mais tarde, mesmo sabendo que o compromisso era para toda a vida; preferiam “lançar-se” a permanecer indecisos – e sós – diante do risco.
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[1] Mons. Escrivá expressa este ponto com a sua característica clareza, e acrescenta um pensamento que deveria ser ponderado por todos os que têm medo do compromisso cristão: “Quando se escolhe uma coisa, muitas outras – também boas – ficam excluídas, mas isso não significa que falte liberdade: é uma conseqüência necessária da nossa natureza finita, que não pode abarcar tudo, muito embora, ao decidir-se em cada momento por Deus – que é o fim último também da ordem natural –, de algum modo se obtém tudo no próprio Deus (cfr. Eccli. XLIII, 27)”.
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Mas hoje parece que as coisas vão mais longe. Que alguém que compra um carro ou um eletrodoméstico exija um prazo de garantia pode ser um sinal bastante razoável de prudência. Mas que um número crescente de pessoas não esteja disposta a casar-se sem uma cláusula implícita ou mesmo inconsciente – mas real – que possibilite o divórcio, é sinal de uma arraigada desconfiança e do medo de comprometer-se, o que significa, em última instância, medo do amor.

É verdade que vivemos num mundo dominado pela publicidade, e isso não favorece a confiança: tudo parece ter qualidades tão incríveis e um valor tão extraordinário que acabamos por não acreditar no valor real de quase nada. Mas, se a culpa da nossa desconfiança em relação às qualidades das coisas feitas pelos homens poderia ser lançada a débito dos maus publicitários, quando se trata de bens que nos são dados por Deus (como são as relações sociais, a amizade, o amor, o casamento), o único culpado desse sentimento de desconfiança somos nós mesmos. Abusamos tanto das coisas boas que Deus nos deu que chegamos ao ponto de desvirtuá-las, e já não nos servem – como gostaríamos – para nos tornar felizes. Se já não nos fiamos delas, é porque, de tanto deformá-las, convertemo-las em algo para que nunca foram feitas.

COMPROMISSO E AMOR


Não há dúvida de que, se um homem não é livre, não pode amar. Mas também não deveria haver a menor dúvida de que, se não se ama, não se pode ser verdadeiramente livre. A liberdade existe para amar; uma liberdade sem amor tem tão pouco sentido quanto valor.

Escolher coisas que não se podem amar, que nem sequer se podem respeitar, é escolher uma vida sem valores; é degradar a própria natureza humana. Levada ao extremo, essa atitude é o inferno, porque o inferno é o estado em que se escolhe somente aquilo que se odeia. A vontade que só pode escolher aquilo que odeia não é uma vontade livre: está totalmente escravizada. Portanto, toda a escolha feita sem amor é, no melhor dos casos, um exercício muito pobre da liberdade; tão pobre que, no pior dos casos, pode representar um passo em direção à perda total dessa liberdade.

Para realmente sermos livres, devemos amar, e devemos amar algo que mereça ser amado. Só então nos será possível comprometer-nos livremente, e todos os compromissos serão compromissos de amor, porque a necessidade essencial do amor é comprometer-se com a pessoa amada.

Existe, pois, uma conexão necessária entre liberdade, compromisso (escolha) e amor. Com palavras de Mons. Escrivá, “a oposição entre liberdade e entrega é sinal inequívoco de que o amor está vacilante, pois nele reside a liberdade. Precisamente por isso, costumo dizer que não compreendo a liberdade sem a entrega, nem a entrega sem a liberdade; uma realidade sublinha e afirma a outra” [2].

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[2] Cfr. o comentário de G. K. Chesterton na sua obra-prima, a Ortodoxia: “Nunca eu poderia conceber nem tolerar nenhuma Utopia que não me deixasse a liberdade a que me sinto mais apegado: a liberdade de acorrentar-me”.
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FAZER AQUILO QUE “DÁ VONTADE”…


Já rejeitamos atrás a idéia de que a liberdade consiste no poder de fazer aquilo que nos “dá vontade”, aquilo que nos dá na gana. Como fizemos notar, esta idéia não resiste à menor análise. A popularidade de que goza, apesar de tudo, como noção de liberdade, deve ser atribuída à tendência para o raciocínio superficial e, também, ao desejo de propagar uma idéia libertina da liberdade: de chamar com o nobre nome de liberdade o que não passa de um impulso sem controle. Do que dissemos anteriormente, depreende-se que, quando um homem não sabe controlar os seus impulsos – quando são estes que o controlam –, não é livre; e que o fim de um egoísmo tão descontrolado não pode ser outro que a imersão do eu numa escravidão total.

É interessante recordar a frase de Santo Agostinho – ama et fac quod vis (ama e faze o que quiseres) – que, em outros tempos, quando os libertinos eram mais cultos – se não mais sinceros –, gozava de popularidade como citação clássica entre eles. No entanto, não foi no seu período de libertinagem, mas depois – quando já tinha experimentado como a liberdade sem verdadeiro amor pode escravizar – que Agostinho formulou essa frase impressionante.

Refletindo um pouco, vê-se claramente o que quer dizer. O amor – o amor libertador – a que se refere é o amor a Deus. A pessoa que procura fazer com que o amor a Deus seja o motivo de todas as suas ações quer o que Deus quer; gosta do que Deus quer. Portanto, como sempre lhe é possível fazer o que Deus quer, pode fazer sempre o que gosta de fazer, o que “tem vontade” de fazer, e ser assim o mais livre de todos os homens. A liberdade, efetivamente, passa a ser para essa pessoa o poder de fazer o que deseja, e, desde que continue a amar, estará sempre fazendo o que lhe “dá vontade”.

Poderíamos acrescentar, de passagem, que a pessoa que procura viver assim resolveu um dos principais problemas da moralidade: o problema de amar o dever, de gostar daquilo que tem que fazer. Essa pessoa fará o que deve, o que Deus quer dela (ou, pelo menos, procurará fazê-lo), porque quer fazê-lo, porque gosta de fazê-lo.

CAMINHOS PARA A LIBERDADE


A liberdade, como já vimos, é o que nos permite ser plenamente nós mesmos. Nisto reside a meta: em chegarmos a ser “aquilo” que somos capazes de ser.

Por esta mesma razão, muitos caminhos – livremente escolhidos – não são caminhos de liberdade: são caminhos que impedem o homem de chegar a ser plenamente homem. São caminhos de autolimitação, de autofrustração ou de autodestruição. Um homem autolimita-se e se autodestrói quando escolhe o caminho da soberba, da luxúria, da autocompaixão, da mentira ou da mesquinhez.

O caminho que leva à liberdade é um caminho de montanha, e quem quiser percorrê-lo terá que subir a encosta da justiça, do serviço, da humildade, da castidade, do amor…

Quanto mais um homem lutar por prosseguir nesse caminho, tanto mais livre se fará. E quanto mais livre for, tanto mais senhor de si mesmo será, e tanto maiores o domínio e o controle plenos que terá sobre todas as suas faculdades. Terá a liberdade de manter as faculdades e os instintos inferiores adequada e dinamicamente subordinados às faculdades superiores – a sensualidade ao amor, a ira à justiça, etc. –, e conseguirá também que as faculdades superiores se relacionem gozosamente com os valores superiores: o amor com a bondade, a inteligência com a verdade. É somente ao longo deste caminho que o nosso esforço se vê recompensado pelo encontro com a liberdade.

UMA BUSCA VÃ?


Dois fatos, entretanto, parecem converter esta busca numa tarefa vã. O primeiro é a morte. Por mais livre que um homem chegue a ser, por maior que seja o autodomínio alcançado pelo desenvolvimento das suas potencialidades, se a morte acaba com tudo, tudo estará perdido no momento da morte.

O segundo fato é que a plena auto-realização pode apresentar-se como meta inacessível; parece que o homem está destinado à frustração de não se realizar nem de chegar a satisfazer plenamente as suas necessidades; destinado, portanto, a nunca alcançar a liberdade total. Depois de tudo, se, como vimos, liberdade implica ver-se livre de “necessitar”, parece claro que o homem está destinado a não ser jamais plenamente livre neste mundo, pois, por muito que possua, sempre necessitará de mais. Ora, um homem consciente de desejos não satisfeitos não se sente completamente livre.

O desejo humano de prazer ou de bens materiais talvez possa ser saciado. Mas o próprio fato de se poder chegar a sentir nojo do prazer, ou à saturação e ao tédio dos bens de consumo, é sinal certo de que a auto-realização humana não se encontra nessa linha. No entanto, há duas necessidades – precisamente as maiores e as mais nobres – que nunca, dentro da experiência humana, podem ser plenamente satisfeitas. São a necessidade de verdade e a necessidade de bondade, a necessidade de saber e a necessidade de amar.

Estas são as maiores necessidades humanas. Não há dúvida de que podem enlanguidecer e anquilosar-se, mas uma das constantes da história humana tem sido a de que, quando mantidas vivas e despertas, não há nada na terra capaz de saciá-las.

O HOMEM NECESSITA DE DEUS


O homem quer conhecer toda a verdade; experimenta a necessidade de conhecer a verdade sem limites. E quer também encontrar e possuir a bondade, sempre em maior medida; procura e necessita da bondade eterna e infinita, do amor eterno e infinito. Em outras palavras, precisa de Deus. Esta é a razão pela qual, mesmo no plano natural, se pode afirmar com certeza que o homem está feito para Deus e que nada que não seja Deus pode satisfazê-lo por completo. É unicamente na posse e gozo de Deus que o homem chega a ser verdadeiramente ele mesmo e a sentir-se verdadeiramente livre.

Os que não crêem em Deus podem procurar a liberdade perfeita, mas não a encontrarão. Quando se imaginam chamados a ser messias, podem até mesmo prometer essa liberdade a outros, mas não poderão dá-la. Deus é o único Messias capaz de fazê-lo.

A SALVAÇÃO E O EU


Encontrar ou perder a Deus significa, pois, encontrar-se ou perder-se a si mesmo e, em conseqüência, encontrar ou perder a própria personalidade. No plano natural, esta posse ou perda da personalidade, do autêntico “eu”, está contida implicitamente nos termos “salvação” e “perdição”.

Sempre no plano natural, salvação significa salvar o próprio eu, realizar-se de verdade, possuir-se de verdade, exercendo de modo pleno e livre as potências e faculdades próprias. Perdição – nesse mesmo plano – significa perder a unidade, a consistência, a direção, reduzir-se a uma “personalidade” (se é que se pode chamar assim) que não é senão um campo de batalha de desejos e impulsos opostos, a um ser de que já não fica nada além de retalhos soltos de amargura, frustração, orgulho e ódio.

A diferença entre salvação e perdição é realmente a diferença última entre liberdade e escravidão. Tanto o processo que conduz à liberdade (que leva a conquistar paulatinamente a liberdade) como aquele que desemboca na perda da liberdade (paulatina degeneração até a escravidão) são processos que se realizam aqui nesta vida, desde os seus começos. Mas o resultado definitivo desses processos, o estado de liberdade ou de escravidão definitiva, só pode ser vivido para sempre na eternidade.

Este é o motivo pelo qual nunca poderemos possuir a liberdade plena nesta terra. A única coisa que podemos conseguir são “liberdades”, possibilidades e capacidades de atuar, de nos movermos e nos realizarmos livremente; liberdade para avançar com esforço em direção à meta, para lutar e vencer o egoísmo, para aprender a amar. Temos que lutar constantemente por praticar essas liberdades, lutar até por mantê-las, uma vez que são liberdades que estão em contínuo perigo e que se podem perder.

Não nos esqueçamos de que podemos também cair na escravidão; em uma ou em muitas escravidões: a escravidão de um egoísmo orgulhoso, a escravidão de um espírito ressentido ou invejoso, a escravidão da luxúria, do álcool, das drogas… E, no entanto, enquanto continuamos a caminhar por esta terra, essas escravidões nunca serão definitivas; podemos libertar-nos do seu jugo, combatendo-as e evitando que a sua ação, pegajosa e desagradável, se torne eficaz no nosso caso.

E somente quando o nosso caminho chegar ao fim, quando a morte interromper para sempre a luta (ou a falta de luta) e encerrar o processo de desenvolvimento (ou degeneração), só então é que o homem “forjará” o seu eu definitivo e eterno: na gloriosa e gozosa expansão da sua personalidade libertada ou nos restos escravizados da sua personalidade perdida.

O DOM DA LIBERDADE DIVINA


Há ainda duas coisas que gostaria de dizer.

O homem não pode salvar-se por si só. Unicamente com a ajuda de Deus é que pode encontrar a salvação. Se descura ou rejeita essa ajuda, perde-se. O homem tem mantido desde sempre a esperança de alcançar a liberdade perfeita, de chegar a ser plenamente dono da sua própria natureza, de estar em plena posse de todas as suas faculdades e de ser capaz de exercê-las sem restrição alguma. Mas só Deus pode dar ao homem essa liberdade.

No entanto, o cristão não fica nesse estágio ao tratar do tema da liberdade, porque Deus, que o ama, também não se limita a ele. O plano de Deus, em Cristo, é dar ao homem infinitamente mais do que o homem poderia esperar. Seu plano é dar-lhe mais do que a plena posse e gozo da sua própria natureza, com toda a carga de liberdade que isso implica: Ele quer dar ao homem a posse e gozo da natureza divina. Quer dar-lhe a posse da própria liberdade de Deus.

O plano de Deus, portanto, não é só que o homem, no fim, se encontre e possua a si mesmo. Cabe-lhe encontrar alguma coisa que está muito acima de si mesmo. Somente o cristão se apercebe daquilo que a realização das potencialidades do homem pode significar no plano divino revelado em Jesus Cristo. Deus fez o homem capaz de Deus. Fê-lo capaz de conhecer e amar a Deus – infinita Verdade e infinita Bondade – não apenas de um modo natural (tal como uma criatura racional, na sua realização natural, poderia chegar a conhecer e amar a Deus), mas também de um modo sobrenatural. Fê-lo capaz de conhecer e amar a Deus tal como Deus se conhece e se ama a si mesmo; capaz, em outras palavras, de viver a vida de Deus e a liberdade de Deus.

Esta liberdade, evidentemente, é um dom gratuito, uma graça de Deus. Graça, para o cristão, significa precisamente um dom gratuito que Deus concede ao homem com a finalidade de torná-lo capaz de viver a vida divina e converter-se em herdeiro da liberdade divina.

A liberdade, portanto, para o cristão, é algo totalmente único. É a liberdade que o próprio Cristo nos conquistou (cfr. Gal 4, 30). A visão cristã da liberdade é de ordem absolutamente diferente da de qualquer sonho de liberdade que permaneça num plano meramente humano. O que o cristão espera – aquilo com que sonha – é, segundo as palavras precisas de São Paulo, a gloriosa liberdade dos filhos de Deus (cfr. Rom 8, 21). E essa liberdade, sendo própria de Deus, é eterna, infinita.

AUTOR

Cormac Burke

Nasceu em Sligo, na Irlanda, em 1927. Formou-se em Direito e doutorou-se em Direito Canônico, ordenando-se sacerdote em 1955. De lá para cá, conjugou a atividade sacerdotal com a tarefa de professor universitário: foi professor da Universidade Católica da América, nos Estados Unidos, da Universidade de Dublin, na Irlanda, e lecionou Teologia Moral e Direito Canônico no Seminário São Tomás de Aquino de Nairobi, no Quênia. De 1986 a 2001, foi Juiz da Rota Romana, o Supremo Tribunal da Igreja, em Roma.

Fonte: www.quadrante.com.br

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